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UMA CIENTISTA CHAMADA JOHANNA- por Veronica Massena Reis (*)

Postado por Sylvio Pélico Leitão Filho 19/10/2016 16:07:34 Artigos
"Em sua trajetória profissional, a cientista e seus colegas descreveram mais de nove novas espécies de bactérias diazotróficas"

Em meio aos horrores da Segunda Guerra Mundial, uma jovem de 20 anos é tirada do convívio familiar. Após o falecimento dos avós, reencontra-se com a família na Bavária, Alemanha Ocidental, e lá recebe a notícia de que sua mãe, Margarethe Kubelka, havia morrido num campo de concentração em Praga. Nesse cenário, é convencida pelo pai, o químico Paul Kubelka, a cursar a Universidade de Munique. Em 1951, forma-se em agronomia e imigra para o Brasil.

Em nosso país, os caminhos a conduzem a especializar-se em microbiologia do solo no antigo Instituto de Ecologia e Experimentação Agrícolas (IEEA), na Rodovia Rio-São Paulo, próximo à Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e muito longe dos centros urbanos. Nessa recém-formada comunidade científica, a jovem se tornou a cientista Johanna Döbereiner, e suas observações e estudos transformaram, e transformam até hoje, a agricultura brasileira.

Em sua trajetória profissional, a cientista e seus colegas descreveram mais de nove novas espécies de bactérias diazotróficas, fato inédito para o Brasil na área agrícola. Mais que isso, as pesquisas de Johanna sobre a fixação biológica de nitrogênio se tornaram sucesso mundial. Idealismo, inteligência, dedicação e perseverança, simplicidade e amor à causa que abraçou fizeram com que Johanna conseguisse, com seus discípulos, desenvolver um vigoroso grupo de pesquisa e transformá-lo em referência mundial já na atual Embrapa Agrobiologia (Seropédica, RJ).

Trabalhos, dos quais a pesquisadora participou efetivamente, permitiram eliminar o uso de adubo nitrogenado nas plantações de soja no nosso país. Sua especialidade foi levar estudos bem-sucedidos sobre soja para os cereais e gramíneas energéticas, como a cana-de-açúcar. Hoje o Brasil se beneficia dessas bactérias que são inoculadas nas sementes, a custo baixíssimo, para colonizar as raízes e, a partir da interação com a planta, reduzirem o nitrogênio atmosférico e o entregarem para a planta. E, para ficarmos na soja: se consideramos a área plantada no Brasil, a economia proporcionada pela não utilização de adubos nitrogenados fica em torno de 10 bilhões de dólares por ano. E, nesssa conta, não consideramos a redução dos gases de efeito estufa, por exemplo.

Nascida em 1924, na Checoslováquia, Johanna faleceu em 5 de outubro de 2000. Até seus últimos dias, permaneceu trabalhando no Laboratório de Gramíneas da Embrapa Agrobiologia, no prédio que hoje leva seu nome. Johanna Döbereiner é um exemplo para todos nós. Uma pioneira, que se instalou em uma pequena cidade na periferia do Rio de Janeiro, longe de suas raízes. Com coragem e determinação, criou uma rede internacional de pesquisa, que estuda o segundo processo biológico de maior importância para a vida na terra, a fixação biológica de nitrogênio (o primeiro é a fotossíntese). E mudou a ciência e a agricultura.

Johanna adotou nosso país como pátria para felicidade de sua família e nossa, por termos com ela convivido. Recebeu em vida homenagens e o reconhecimento internacional por seu esforço e sucesso em formar cientistas, produzir conhecimento original e ajudar a transformar a realidade para melhor. O mundo mudou, está mais consciente da importância da sustentabilidade. Johanna sabia disso há décadas. Afinal, era uma brasileira à frente de seu tempo. Em 2016, ela é a homenageada da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia.

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(*) Pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)

Mais Informações:

secom.imprensa@embrapa.br

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